Primeiro caso de pedofilia da Igreja Católica em Timor-Leste Featured

por José Belo e Tjitske Lingsma 

A Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) no Vaticano demitiuRichard Daschbach do sacerdócio, após as acusações que recaiam sobre ele, relativamente ao abuso sexual de crianças que estavam sob os seus cuidados, no Oecusse, Timor-Leste. Tal foi confirmado ao Tempo Timor pelo Padre Jovito Rêgo de Jesus Araújo, Vigário Episcopal para a Pastoral da Diocese de Díli. É a primeira vez que é revelado em Timor-Leste um caso de abuso sexual de menores, por um membro do clero católico. Daschbachconfessou os crimes à sua congregação, Societas Verbi Divini(SVD, Sociedade do Verbo Divino), regressando, porém, para acomunidade onde supostamente cometeu os abusos.

Topu Honis

Daschbach, um americano originário de Pittsburg, EUA, chegou à ilha em 1966. Em 1992, estabeleceu a Topu Honis Shelter Home, que possui dois espaços no Oecusse. http://www.topuhonis.org/.Segundo o site da organização, é 'um refúgio seguro' para órfãos, “crianças de lares extremamente pobres, adultos com deficiências e mulheres que fogem de abuso.” A Topu Honis divulga que fornece cuidados de saúde, alimentos, escolaridade, 'abrigo e segurança', apoio financeiro para a educação, oportunidades de emprego e preservação cultural. Ao longo dos anos, "serviu mais de 600 crianças e adultos na área", diz o site. 

Abuso sexual

No entanto, nos bastidores a realidade era outra. No orfanato de Kutet, as raparigas eram alegadamente abusadas sexualmente por Daschbach, segundo o padre Yohanes Suban Gapun, o superior regional da SVD, baseado em Dili. No início de 2018, a Congregação recebeu informações que alertavam para situaçõesde abusos sexuais, pelo que, como resposta, o Superior Geral da SVD, em Roma, enviou um correio electrónico para Gapun, solicitando-lhe que fosse ao Oecusse e para que Daschbach viesse a Díli. Enquanto a congregação investigava o caso, o padre foi suspenso e proibido de realizar celebrações eucaristicas. Duranteuma conversa telefónica com o Superior Geral, em Roma, Gapunafirma ter ouvido Daschbach confessar, dizendo "É 100% verdade". Gapun comentou ainda que "Ele repetiu isso quatro vezes."

O caso representa um verdadeiro choque. "Nós nunca esperávamos tal de um homem que se dedica ao povo. Ele é como o pai daquela comunidade, que ele próprio construiu, alimentou e apoiou com todo tipo de ajuda. (…) Esta é uma verdadeiradesgraça. Uma catástrofe. Uma situação muito dramática. Um idoso de 82 anos a ser acusado de pedofilia”, disse Padre Jovito.

Tempo Timor contatou Daschbach, mas não obteve qualquerresposta.

Enquanto isso, as investigações criminais encontram-se em andamento, o que significa que as possíveis vítimas e testemunhas, bem como as suas identidades, são protegidas porlei.

Volta à Kutet

Os líderes da SVD tinham instruído para que o padre ficasse em Díli. No entanto, a 19 de agosto de 2018, sem autorização dos seus superiores, Daschbach deixou as instalações da SVD, voltando para Kutet, no Oecusse, onde se encontra até o momento. Pouco antes da sua partida, o padre disse que renunciaria à congregação SVD.

Processo penal

Enquanto isso, as instituições da Igreja Católica continuaram o seu processo penal administrativo. A SVD eximiu Daschbachcomo membro, explica Gapun. Quando se trata de alegações de abuso sexual contra menores, é a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), localizada no Vaticano, quem lida com esses casos. Em novembro de 2018, a CDF emitiu oficialmente um decreto dedemissão de Daschbach. O Padre Jovito declarou: "Ele não é mais padre. Nós proibimo-lo de celebrar na comunidade e pedimos às pessoas que não participassem nas suas celebrações.”

A Igreja Católica em Timor-Leste ainda não informou a população sobre as razões pelas quais Daschbach foi exonerado, pelo que tem agora apenas o estatuto de leigo. "De forma geral,dissemos às pessoas que ele cometeu um crime que não foi absolvido pela Igreja Católica, em Roma, e que foi expulso do clero." Quando questionado se a Diocese está a planear publicar a decisão e os seus motivos, Padre Jovito disse: 'Não sou eu quemtoma as decisões. Mas, acho que as pessoas deveriam saber. O Vaticano confirmou a decisão final relativamente a um padre que cometeu abusos deste tipo.”

A celebrar missa

A 30 de dezembro de 2018, o Padre Jovito foi até Kutet para impedir que Daschbach celebrasse missa. "Mas quando lá cheguei, ele já tinha celebrado. Fiquei com raiva, porque ele játinha recebido a carta da Diocese onde era claro que não tinhamais permissão para celebrar. Eu disse ao povo: se quiseremajudá-lo, será melhor não irem às suas celebrações. Ele não é mais considerado padre. Ele aceitou a acusação e assinou a carta relativa à acusação sobre o comportamento enganoso e ilícito que cometeu.”

Etapas adicionais

Como Daschbach recusandose a seguir as regras e as penalidades impostas pela Igreja Católica, a Diocese está a considerar novos passos. "Ele têm de ser preso", disse o Padre Jovito, acrescentando: ‘Talvez precisemos de o mandar de volta para asua cidade natal ou para a Indonésia, porque ele foi missionário na Indonésia por muitos anos. Ele cometeu um crime. Não deveficar em Timor-Leste.”

 

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